quarta-feira, 22 de março de 2017

oferenda à paz que afaga a agonia


nos foi dado gritar
e arranhar com os dentes

nos foi dado um corpo
com tantas inquietações

nos foi dada a existência
com tudo o que pensamos verde:
folha, musgo, mar, gafanhoto

inventamos a palavra
suas escravidões, perfurações
transmutações, suas lambidas

nos foram dadas unhas
para seguirmos cavando

nos foi dado tanto
nos foi dado muito...

enquanto arde a matança
é violenta a esperança

nos foi dado gritar
e arranhar com os dentes

nos foi dado um corpo
com tantas inquietações

nos foi dada a existência
com tudo o que pensamos verde:
folha, musgo, mar, gafanhoto

dói, todo dia, às vezes...
e agradeço o milagre
chorando por nós

a lâmina em riste
para a próxima dança

cabeça erguida
pés firmes no chão

olhando de frente
para tudo que sangra

te ofereço meu fígado
com minhas próprias mãos

pega querido, come...
é de coração

mas caso a guerra insista
posso dormir tranquila
entre os assassinos

domingo, 8 de janeiro de 2017

violentamente viva

se bater
revido
e aviso
sou muito perigosa...

só que no dia-a-dia
preencho força de amor...

nada especial
um tipo de amor simples
que gero, gesto e danço
entre milagres e espasmos

incluindo os ossos, as marcas
a pele, as dores e as pedras junto

tem sido um belo escudo
e uma bela espada

a cantar em tudo
“meu tempo
é quando”

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Para(á) no corpo

(para Thales, hoje)

a infinitude das margens
parindo um milagre todo novo
abrindo uma beleza inaugural
da violência divina em meus olhos

vastidões de transbordamentos
no giro incansável do corpo
pele, músculos, sangue, ossos
memórias, pulsos e acasos

ajoelho, rio e choro
por tudo que amanhece aqui
entre ocasos e esperas

na voz de uma imagem sem antes
invocando lonjuras amazônicas
de águas doces em mim

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

saturno em câncer

e eis que num dia comum
nublado como tantos

dei de nascer sem querer
amando tudo o que me move

como um cavalo selvagem
e aquele vento-crina
no ritmo dos cascos
na água

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

porta-retrato em riste

lembro bem do longo corredor
lembro bem da força do escuro
da leveza pesada das sombras
do ardor e dos sopros

trouxe comigo os trapos da infância
e todas aquelas desnecessidades
para plantar no vento dos olhos
outros espelhos nos agoras de sempre

as ausências no espelho gritam
no vazio refletido antes da imaginação

a morte é feita
de tantos nascimentos
que tem precisão de sangrar
para se crer enquanto espasmo

dos desmaios e das faltas de ar
dei para soltar polens de intentos
nessa espera das palavras
antes mesmo dos silêncios

arrancando com as unhas a pele do abismo
e protegendo todos os meus umbrais

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

uma oração antiga para saudar o dia

(diário corporal, em louvação ao que a morte fecunda)

peço licença
para entrar nesse lugar
que também é meu

peço licença
para ser e para dar
o que pelo Grande Espírito
me for dado oferecer

peço força, coragem e sabedoria
para ouvir os desígnios do Grande Mistério

e humildade e fé
para o caminho que se inicia
e o que permanece

aqui estou
aqui me dou
aqui me entrego

Aqui recebo
o que me traga a estrada

humildemente peço é fé e luz
para os meus passos

e que em cada porta aberta
(e até fechada)
eu ofereça de bom grado
tudo o que tenho e posso
pela cura do mundo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

a riscar uma estrada em tempos de cólera

o ódio é o ópio da dor
e a jaula da paz

aceno ao ópio e à dor
mas não à jaula
não se pode prender a vida

no agora prefiro a liberdade
essa louca desconhecida
e o amor, minha única casa