quarta-feira, 7 de setembro de 2016

corpo sangrando em setembro

penúltimo dia de lua nova, 2016

dançarina de fados
assassina de traças

devota da terra
guerreira em faiança
arco flecha e lança

serpente do deserto
bicho alado
agonia e canto

e o corpo sendo
o meu circo
e a minha oração

há um acordo entre
o que doo à terra
e a lua crescendo

morte e vida
são atos de fecundação

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

sim, há um sorriso em meus lábios

na margem das oferendas
alguma coisa rosna e atravessa

de tanto não saber
rezei ao bicho
cantando à flor do milagre

entre os meus sonhos
já não há pesadelos

a beleza e o assombro rosnam
na mesma língua

é suficiente estar aqui

e já nem sei se ajoelho
ou grito

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

bordadeira de instantes

(entre o uivo, a palavra e o desconhecimento das coisas)

foto-dor tirada por mim na missa do vaqueiro, um fragmento
do efeito das rédeas entre rezas e perdões...

creio que há algo escrito em meus ossos
povoando poros devassados ao mundo

viver dói, isso é inegável
sendo junto esse grande milagre

por enquanto, que eu saiba honrar todos os corpos
os meus, os que me tocam, os que atravessam
os que me dançam... ereção, louvação, contradição

na minha fala, no meu riso, no meu grito
no silêncio, nos meus passos, na oração...
que eu saiba honrar todos os corpos na passagem

e que eu saiba matar e morrer
com a honra de um bicho

e o brilho nos olhos
de um ser selvagem

sábado, 6 de agosto de 2016

essas velhas coisas belas

de tristeza e de calma
a esculpir o tempo
faz muito não encontro
entre os ossos da alma
aquele homem faminto
que ainda ontem
assombrava os meus instintos
os pés sobre suores e abismos
como uma ode ao que perdi

e se mil sóis acendem no ventre
o que se mente a gerar fé
de escuridões se arde
e se acredita na lida
pele, carne, tudo isso que se come
chamando ventos e nadas
como quem canta
porque morrem as flores
mas antes, elas vivem

terça-feira, 19 de julho de 2016

Estranhamente crônica

Ando estranhando o mundo.
Estranhando os buracos na calçada,
o lixo jogado nos cantos,
as pessoas dormindo na rua por todos os lados.

A dor espalhada como um sebo pegajoso
entre corpos anestesiados!

Os argumentos políticos e estruturais,
os homens refletindo guerras,
bicho e gente sentindo fome,
nosso Brasil tão florestal, encimentando mais...

Ando estranhando situação e oposição.
Ando estranhando os muros,
as fronteiras que se firmam.

A tristeza das flores,
o desespero do rio,
esse domínio do medo.

As roupas impostas,
as vozes impostas,
as mortes impostas...
Tudo isso que vingou
há tantas encarnações.

Ando estranhando o mundo e percebo
essa estranha que acena
a confiar a estrada
à solidão de amar
sem pedir nada.

A mais estranha de todas as dádivas,
delicadamente dançada
ferozmente dançada
cruamente dançada
em toda encruzilhada.

À terra, ao mar, à natureza em nós
e aos milagres desse estranho mundo.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

uma canção do osso da alma

nem sabia que o amor podia fazer tanto frio
até morrer duas vezes essa noite
e uma no meio da tarde

vou tecer durante o sono
para amanhecer pássaro
outra vez

caso eu suma
é da natureza das asas

(voar também faz calos)

domingo, 17 de julho de 2016

Sétima Lua

Hoje um vento terra
Me levou seus mares

O fogo avistou a alma
Antes de mim

Me perdi do avesso
Numa descoberta

Estrada de lua crescendo
E estrelas, águias

A pele antiga se desfazendo
Creio até que poderia ser eu

Mas amando mais
Em muitas direções