sábado, 3 de junho de 2017

canto aos que não amo e para um homem bom


cantai por mim
oh coração em desespero

para que eu encontre o perdão
em minha sensibilidade morta

devo muito aos que não amo
e é por eles que choro, ainda

era eu o animal
abatido em ritual
a lavar teus pesadelos

era meu o sangue oferecido
escorrendo em teus cabelos

manchando as pedras da calçada
o corpo, o chão, era eu...

também sou da falange dos outros
e danço com todos eles

acostumei desde cedo
à voz rude do inferno

Jesus!
não te posso dar
toda a fé dos meus pés
nem todo o meu abismo
(não suportaríamos tanta luz)

cantai por mim
oh coração em desespero

para que eu encontre o perdão
em minha sensibilidade morta

terça-feira, 28 de março de 2017

da febre do osso lacrimal

(em noite de Lua Nova, escura, misturada)

nômade do deserto
movedora por sina
tecedora de caminhos

criatura divina
quem te falou
que era seguro nascer?

chora criança, chora
o choro ajuda a acordar
quando os pesadelos pesam

mas chora com doçura
que o sal não morre
enquanto houver o mar

quarta-feira, 22 de março de 2017

oferenda à paz que afaga a agonia


nos foi dado gritar
e arranhar com os dentes

nos foi dado um corpo
com tantas inquietações

nos foi dada a existência
com tudo o que pensamos verde:
folha, musgo, mar, gafanhoto

inventamos a palavra
suas escravidões, perfurações
transmutações, suas lambidas

nos foram dadas unhas
para seguirmos cavando

nos foi dado tanto
nos foi dado muito...

enquanto arde a matança
é violenta a esperança

nos foi dado gritar
e arranhar com os dentes

nos foi dado um corpo
com tantas inquietações

nos foi dada a existência
com tudo o que pensamos verde:
folha, musgo, mar, gafanhoto

dói, todo dia, às vezes...
e agradeço o milagre
chorando por nós

a lâmina em riste
para próxima dança

cabeça erguida
pés firmes no chão

olhando de frente
para tudo que sangra

te ofereço meu fígado
com minhas próprias mãos

pega querido, come...
é de coração

mas caso a guerra insista
posso dormir tranquila
entre os assassinos

caso seja uma escolha
posso dormir também
entre os seres que matam

segunda-feira, 20 de março de 2017

desejo de lua minguante

quero abrir a porta da rua
e encontrar gente
pulsando com o vento

essas caras perdidas
entre mentiras e meias palavras
ainda e além, me deixam cansada

quero multidões de corações
em carne viva, pulsando

quero só essa imagem fútil,
pobre de tão gasta

sexta-feira, 10 de março de 2017

minha humanidade possível

sou da falange dos fracos
loucos do sentir

enquanto grito e resvala
o sangue na pele, já, ainda

olho as minhas garras
meus dentes que pingam

invoco deuses estranhos
duvido de todos eles

me calo
sacio as mãos no vento

me abismo
e rezo por nós

sangue endurecido
cheira a ferro e cicatriz
enquanto ninguém morreu

...

ouço as solas dos pés
corro solta na água

o som líquido dos cascos
caio

sou da falange dos fortes, também
e mordo como quem acredita no amor

domingo, 8 de janeiro de 2017

violentamente viva

se bater
revido
e aviso
sou muito perigosa...

só que no dia-a-dia
preencho força de amor...

nada especial
um tipo de amor simples
que gero, gesto e danço
entre milagres e espasmos

incluindo os ossos, as marcas
a pele, as dores e as pedras junto

tem sido um belo escudo
e uma bela espada

a cantar em tudo
“meu tempo
é quando”

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Para(á) no corpo

(para Thales, hoje)

a infinitude das margens
parindo um milagre todo novo
abrindo uma beleza inaugural
da violência divina em meus olhos

vastidões de transbordamentos
no giro incansável do corpo
pele, músculos, sangue, ossos
memórias, pulsos e acasos

ajoelho, rio e choro
por tudo que amanhece aqui
entre ocasos e esperas

na voz de uma imagem sem antes
invocando lonjuras amazônicas
de águas doces em mim

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

saturno em câncer

e eis que num dia comum
nublado como tantos

dei de nascer sem querer
amando tudo o que me move

como um cavalo selvagem
e aquele vento-crina
no ritmo dos cascos
na água