terça-feira, 28 de março de 2017

da febre do osso lacrimal

(em noite de Lua Nova, escura, misturada)

nômade do deserto
movedora por sina
tecedora de caminhos

criatura divina
quem te falou
que era seguro nascer?

chora criança, chora
o choro ajuda a acordar
quando os pesadelos pesam

mas chora com doçura
que o sal não morre
enquanto houver o mar

quarta-feira, 22 de março de 2017

oferenda à paz que afaga a agonia


nos foi dado gritar
e arranhar com os dentes

nos foi dado um corpo
com tantas inquietações

nos foi dada a existência
com tudo o que pensamos verde:
folha, musgo, mar, gafanhoto

inventamos a palavra
suas escravidões, perfurações
transmutações, suas lambidas

nos foram dadas unhas
para seguirmos cavando

nos foi dado tanto
nos foi dado muito...

enquanto arde a matança
é violenta a esperança

nos foi dado gritar
e arranhar com os dentes

nos foi dado um corpo
com tantas inquietações

nos foi dada a existência
com tudo o que pensamos verde:
folha, musgo, mar, gafanhoto

dói, todo dia, às vezes...
e agradeço o milagre
chorando por nós

a lâmina em riste
para próxima dança

cabeça erguida
pés firmes no chão

olhando de frente
para tudo que sangra

te ofereço meu fígado
com minhas próprias mãos

pega querido, come...
é de coração

mas caso a guerra insista
posso dormir tranquila
entre os assassinos

segunda-feira, 20 de março de 2017

desejo de lua minguante

quero abrir a porta da rua
e encontrar gente
pulsando com o vento

essas caras perdidas
entre mentiras e meias palavras
ainda e além, me deixam cansada

quero multidões de corações
em carne viva, pulsando

quero só essa imagem fútil,
pobre de tão gasta

sexta-feira, 10 de março de 2017

minha humanidade possível

sou da falange dos fracos
loucos do sentir

enquanto grito e resvala
o sangue na pele, já, ainda

olho as minhas garras
meus dentes que pingam

invoco deuses estranhos
duvido de todos eles

me calo
sacio as mãos no vento

me abismo
e rezo por nós

sangue endurecido
cheira a ferro e cicatriz
enquanto ninguém morreu

...

ouço as solas dos pés
corro solta na água

o som líquido dos cascos
caio

sou da falange dos fortes, também
e mordo como quem acredita no amor