Porque estou gritando
agora e ninguém me ouve. Porque eu mesma não escuto a minha voz. Porque o meu
sussurro jorra dores e paz. Porque não há razão nem loucura. Porque não quero.
Porque quero mais que sempre. Porque sou. Porque me atirei do vigésimo andar e
descobri que sei voar. Porque nunca fecho as janelas da casa. Porque não sou.
Porque danço com a música imprevisível do vento e não caio. Porque amanheço
quando morro. Porque meus olhos não escondem segredos. Porque o coração canta,
soprano, no mais alto tom que alguém já cantou. Porque decifro vozes que se
foram, sem medo. Porque não desisto apesar do pranto. Porque não me calo.
Porque choro baixinho para regar o mundo. Porque ainda não tenho todas as
flores em mim. Porque pinto jardins de sonhos em qualquer parede. Porque há
calos em minhas mãos e gosto, nos pés também. Porque todos os alados são minhas asas, mesmo os
urubus, mesmo os anjos, os demônios, os rouxinóis e os beija-flores. Porque
corto as unhas bem curtinhas para não rasgar o véu delicado da vida. Porque
ando devagar e despenco enquanto corro. Porque nunca paro para rezar. Porque
não há salvação, mas existem belos caminhos. Porque não chamo o amor e carrego
o seu nome nas veias. Porque as vísceras são desenhos doidos traçados por
estrelas cadentes. Porque o sangue não coagulou ainda. Porque não acredito na
eternidade. Porque levei trinta anos para me conhecer e todo dia descubro que
sou outra e sei que é tarde demais para encontrar o não-existo. Porque não há
explicação. Porque busco a verdade com a fome de um recém-nascido para suportar
todas as mentiras. Porque dói cortar os pulsos, mas não tenho pena de parar de
respirar. Porque errei tantas e tantas vezes e estou pronta a errar de novo.
Porque amo viver só por saber que tem um fim. Porque amo simplesmente. Porque
meu ventre está repleto de pólen. Porque a insanidade queima e a lucidez
também. Porque meu corpo não me pertence e é todo meu. Porque a beleza é e os
feios estão apenas. Porque acredito. Porque não creio em nada somente para
descobrir avessos. Porque facilmente esqueço das coisas para me espantar
infinitas vezes com os mesmos milagres. Porque guardo os bons momentos na pele
para sentir o cheiro das alegrias quando suo. Porque os perfumes do caminho
constroem mais do que as palavras escritas. Porque os dizeres mais dentro são
sempre mais belos, mas só estando nu e descalço é que se consegue escutar.
Porque existem brilhos mesmo no mais negro breu. Porque há sim passarinhos que
entoam músicas divinas para as estrelas e outros que chegam para beijar a aurora.
Porque a lua muda toda noite. Porque fico muda de dor e ainda canto. Porque não
gosto de anestesias. Porque fui feita de carne crua, mas cravei plumas em
minhas costas e encontrei um socorro. Porque nunca se tem volta. Porque basta
mudar o foco para acariciar novos céus. Porque não nasci de cesariana, eu vim.
Porque se pode sentir o gosto de tudo mesmo usando apenas o olfato. Porque
quando era criança olhava incansavelmente para o sol sem medo de ficar cega, na
esperança de reter a luz nas retinas e doá-la ao redor quando preciso. Porque
ainda hoje tenho pensamentos de infância e me agarro a eles com a força da
minha alma velha e cansada. Porque me alimento da lama também. Porque não sei
de nada. Porque o mar não morre. Porque nem todos os grilhões conseguem amarrar
um espírito que masca pedaços de liberdade colhidos nos pequeninos instantes.
Porque muitas coisas ainda não têm nome. Porque as lágrimas escorrem é do
peito. Porque o riso é possível. Porque vale a pena. Porque sou nada. Porque
tudo é tão simples quanto se pode ser. Porque sou bicho de natureza azul.
Porque acendo e apago muitas vezes num movimento de rotação. Porque posso matar
sedes que desconheço. Porque mesmo um beco sem saída sempre vai dar em algum
lugar, basta saltar os muros. Porque os pássaros acordaram para me contar os
mesmos segredos que melodiam às manhãs. Porque a toda noite estão presas
incontáveis estrelas e quando vão embora deixam o dia como regalo. Porque
anoitecerá de novo. Porque ainda há muito a fazer. Porque a poesia jamais terá
fim. Porque somos apenas um intervalo. Porque sim, porque sim.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Sobre as minhas rugas
(lembrando Maiakovski, para servir de carta)
Conheci o punhal antes do falo
O silêncio antes do grito
Sangrei todos os partos ao avesso
Enfiaram-me o fim e o começo
quando o tempo era ainda criança
Calma!
A dor não me cabe fora do verso
De resto, sou dança
A cor do meu fado é vermelho
Vermelho-sangue
Não gostas?
Preferes o azul?
O rio eu também sou
------------------Passo
Confunde-te esse azul?
O riso que não se esconde?
Já não tem medo da tristeza
O meu amor é bruto
Vem da natureza
Nasceu antes do fruto
E vingou
Muito antes da minha morte
Eu sei, não me pareço
------------a tua menina
Aquela da fotografia
Mas é que no retrato
Todo riso é eterno
E o punhal não aparece na foto
Enterrado no corpo
Onde dói o passado
É só na gente mesmo
E no espelho
Que viu primeiro a ferida aberta
No instante não-futuro
Do presente ainda quero tudo
O masculino e o feminino
O carnal e o absurdo
O falo e o útero
A cicatriz
O sangue
O verso
O parto
O amor
O grito
O riso
A dor
Só joguei fora o punhal
Não preciso dele nessa luta
Já tenho o meu fado vermelho
Para dançar essa cor
-----------------------filha da puta
No corpo, só me lambe o gozo
Ces´t la vie
Ser feliz?
Me cresceu infantilmente a arte de transfundir
E brincando fiz
---------------maior do que a morte
------------------------------o sorriso da cicatriz
Conheci o punhal antes do falo
O silêncio antes do grito
Sangrei todos os partos ao avesso
Enfiaram-me o fim e o começo
quando o tempo era ainda criança
Calma!
A dor não me cabe fora do verso
De resto, sou dança
A cor do meu fado é vermelho
Vermelho-sangue
Não gostas?
Preferes o azul?
O rio eu também sou
------------------Passo
Confunde-te esse azul?
O riso que não se esconde?
Já não tem medo da tristeza
O meu amor é bruto
Vem da natureza
Nasceu antes do fruto
E vingou
Muito antes da minha morte
Eu sei, não me pareço
------------a tua menina
Aquela da fotografia
Mas é que no retrato
Todo riso é eterno
E o punhal não aparece na foto
Enterrado no corpo
Onde dói o passado
É só na gente mesmo
E no espelho
Que viu primeiro a ferida aberta
No instante não-futuro
Do presente ainda quero tudo
O masculino e o feminino
O carnal e o absurdo
O falo e o útero
A cicatriz
O sangue
O verso
O parto
O amor
O grito
O riso
A dor
Só joguei fora o punhal
Não preciso dele nessa luta
Já tenho o meu fado vermelho
Para dançar essa cor
-----------------------filha da puta
No corpo, só me lambe o gozo
Ces´t la vie
Ser feliz?
Me cresceu infantilmente a arte de transfundir
E brincando fiz
---------------maior do que a morte
------------------------------o sorriso da cicatriz
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Moça com brinco de pérola
O menino na calçada
O menino me queria
Desejada, desejava
Como se tudo no mundo fosse vizinho do fim
Os seus olhos de balão grudados em mim
Não, seus olhos de menino e o balão era eu
Só a cola em suas mãos pregavam seus sonhos
ao espaço
---------------------de sobra, era a verdade
Os escombros, a sujeira, a tristeza, o descaso
E eu
Que de passo em passo mais sangrava a ferida
De perdê-lo ou de vê-lo?
E pensar que em minha dor não cabe nem metade
Do pesadelo envelhecido no menino que nunca nasceu
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
Razão
Seria até fácil responder
o que sou eu e o que vim fazer no mundo
Ah, não fossem tantos eus no mesmo encontro
imundos, sangrando, querendo e morrendo
--------------------------------a cada segundo
e por isso mesmo amando cada defunto
como se todo o tempo em sua pequeneza
não fosse nada menos do que a própria vida
Não há tristeza na terra que me leve
a única coisa que realmente tenho
ainda que de transbordamento só me reste o amor que dôo
Dôo do verbo doer
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Sede

Sangrei tanta vida aos meus pés
Que vou me esquecendo de todo feio
E quando um dia cair de muito alto
Que alguém ouça o segredo em meu epitáfio:
“Aqui jaz um poço que verteu o mais fundo que pôde”
E que a minha lápide seja uma pedra ainda viva
Por eu ter a sorte de cair para sempre no mais longe do mar
Onde mora toda a água que não tive
E por enquanto, de tanto me alimentar de ventos
Que ao menos aprenda a chover debaixo da terra
Para matar a sede das flores
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Pérolas cicatrizadas
O nácar em minhas vísceras devora pedras
Talvez por isso exista o riso ainda em mim
Das feridas em cicatriz as ostras não geram pérolas?
Quando não, sobra o escarro para limpar o peito
Esse cheiro de barro cru? Vem da terra que me pariu
O sangue no caminho? Dói em mim, mas não é todo meu
Tenho cinco fígados e oito corações e dou de comer
Aos cães que sobraram depois do fim do mundo
Quer um pouco? Ou prefere o tesouro escondido?
Farei um colar de risos para enfeitar teus tornozelos
Assim ao caminhar verás o mar e não as ostras
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Soledad
Se não é saudade
A soledad
Nela está contida
Se não é soledad
O amor
Ele sempre a contém
Llena de saudade
Soledad
E amor
Sou contendo
Todas as coisas
Como un hilo de unión
entre ellas
Sou passional
Pasional
Apaixonada
Eternamente
Em todo agora
Lleno de amor
E solidão
E isso não se trata de linguagem
É a matemática da vida
Da minha vida
É exato e sempre
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Confissões
Ainda não escrevi nenhum livro
Meus escritos estão em papéis livres
Sem capas, sem colas, sem páginas numeradas
Plantar até que plantei com zelo
Com mãos de água libertei sementes
Emprenhadas pela mesma terra fértil que me pariu
(Mas até hoje não sei das árvores, das raízes
Se frutos brotaram, se cresceram
Falhas de quem cultiva na infância
Sem conhecer portos, paradeiros)
Filhos também não tive, não nesse mundo
Abortei um anjo muito jovem
E todavía é ele quem canta para que venha o sono
Todas as noites enquanto voamos
Das violações marcadas a ferro no corpo
Em feridas expostas no fogo da alma
Troquei as memórias por belezas
Não esquecimentos. Assim cicatrizo
Desacorrentei da dor as lembranças
E das vísceras implodi risos
Espargidos em olhos alheios
Com um ano abri mão da minha mãe
Que daí então me cuidou livremente
Que dádiva aprender a andar tão cedo!
Muito não quis
Foi para soltar que me fiz
A segurar não fui ensinada
Lacerações cosidas com a minha linha da vida
Liberdades que distribuí por não carregar mais
Que merda! Então não sou nada?
Me falta a sabedoria do ter
Me falta a humildade do colo
Mas amei até morrer, como amei, como amo
Como tenho tanto ainda para dar ao mundo
No afago das minhas mãos escancaradas
Acariciando o perdão ao meu nada
Me faço o regaço do abrigo que me neguei
Para não amputar os abraços que recebi
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Uma certa escultura
Queria recitar um poema amarelo
Parido de cometas soltos no espaço
Mas não tenho nada em mim de belo
Para ir além da fronteira dos lábios
Molhados, vermelhos e cegos
Como uma cerrada porta talhada
Em pau-brasil num dia de chuva
De cortes por mãos de escultor
Que de ingênuo e palhaço
Plantou na cara-carranca um sorriso
Brotado de uma cabeceira de lágrimas
Endurecida em pedra maciça
Onde repousa o meu epitáfio
Que descanse em paz o pobrezinho
Ah, Epitáfio, para seres eterno deverias
viver não mais que uma quadra!
Vai Epitáfio, a vida é curta, mas nem tanto
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Anjo torto
Tantos corpos pelo chão
Tantos mortos nessas mãos
Tantos anjos cor de terra
Tantas bruxas e Vênus
Todas a mesma cara
Do espelho extirpada
A sangue, a ferro, a fogo
Diabos do mesmo ventre
Sereias da mesma água
Monstros da mesma casa
Cacos, recortes, pedaços
Nada sobra, nada fica intacto
entre os dentes do assassino
E ele voa, e ele dança, e ele voa!
Toda queda salva o louco
Arrebentado, costurado a cru no olho nu
Onde se esmera o sal do corpo
E o anjo torto
Na sede de regar as asas
Trepa a vida e vira o céu
Porque não é pouco lutar contra si mesmo e sair vitorioso
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Dádiva
O som dos meus passos
Uma percussão viva
Conferindo um tempo estranho
Ao canto atemporal daqueles pássaros
Que me davam de bom grado
Mais beleza ao silêncio
Que dádiva!
Enquanto imaginava o dia
Na estranheza dos meus pés
Entendi que todo belo
É precedido pelo vôo
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Um encontro
Em passeata uma mulher linda e triste
Trazia uma faixa de dois metros adiante:
Mortuária e Floricultura
E o nome da rua onde nasci
Pintado de verde cintilante
terça-feira, 25 de setembro de 2007
As vozes dos meninos jardineiros
Hoje mais uma vez eles chegaram voando
Debaixo da mesma chuva infernal
Barreiras caídas na terra encruada
Nada avisaram dizendo que vinham
Nem som, nem bandeira cravada, nem sinal
Tudo foi tão calmo como um canto mudo
E de repente brotou foi música no feio do mundo
E era um alvoroço que só vendo, e eu no meio
Girando tontinha cheia de nós batendo no peito
Uma plantação de beleza se chama manancial?
Onde começa e quando termina a memória do salto?
Quanto sangue se move para alcançar esse vôo?
Desertos no corpo, tatuados em mapas, exalam asas?
Quando cavaremos no solo o lugar mais alto?
E aquele grito, qual dia comerá animal que o caiba?
Nunca se tece o tempo na própria carne
Que chegada e partida são feridas irmãs
--------------------------------Só doem juntas.
O que é a existência afinal?
Oxe! Hora de dar um trago...
*
*
*
*
*
A delicadeza de um sonho
cujo único sentido
------------------------é a vida
Vamos, para seguir, resta a lida
Às seis e oito nascer bicho que regue
Essa dança vai até o início da noite
Às dezoito lamber esterco e gozar adubo
Às vinte e três aguar todo chão que seque
Durante a madrugada emprenhar belezas
Toda terra é querência, é mãe por natureza
E apesar da dor do parto, tudo é semente
E bem livre para ser mais belamente, sempre
Brindemos então e sujemos as mãos. Já!
Não se planta ventos nos pés sem sangrar mesmo
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Rotação
Bicho faminto inventando risos
Tragando dores que se alimentam
Das suas próprias vísceras. Que nojo!
Vomitando luzes à cegueira do dia
Bicho mentiroso mostrando os dentes
Escondendo os podres nos lábios úmidos
A cópula vital da beleza que não tenho
Com o grito demente que silencio
Idiota! Pobre poesia!
Por favor, não me julgue por isso
[é a minha última chance de amanhecer hoje
Acendi tantas luas em meu ventre cheio
De crescências e nadas que pari dois sóis
De cócoras na boca da noite
Para dar de presente aos homens
Só depois da orgia, em meio ao espasmo
O corpo estripado, as carnes pelo chão
Vi os gêmeos devorados em meu avesso
E sem voz confessei ao espelho: “Fui eu”
Amputei escuros na dor do parto
E lambuzei o cadáver inteiro
Numa hemorragia de estrelas
Pintei as unhas de auroras
Enfeitei os cabelos de arrebol
Feri todos os desesperos de azuis
-------------------------------E saí por aí
Ainda feia
Mas vestida de pétalas
Para inocentar ao menos
Os espinhos que não são meus
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
A mesma canção escrita por duas décadas de saudades
Para Carlos Drummond de Andrade
Do meu primeiro amor
não ressuscitei impune
Nove dias antes do aniversário
Ele me deixou seu mundo e nunca mais morreu
Saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou
e “do maço
------------------_ vazio _ de cigarros, ficou um pouco”
Pouco mudou dos tempos que foram
Quando entre os brinquedos e o futuro
Ríamos e chorávamos juntos
“O amor não tem importância”
Disse-me certa vez um poeta
Por quem me apaixonei no berço
Pouco mudou dos tempos de antes
O canto nunca mais foi cego
E o espasmo
(longo demais para ser feliz)
Ainda incendeia as carnes
Tudo dói e todavia ouço suspiros mais altos
Do que os gritos que sempre me assombram
Sim, a minha boca verte cheiro de mato
Embebedo homens na rua
Amo dançar nua ainda e te traí umas vezes
As estrelas continuam marcadas na inocência do céu
Como cicatrizes, de verão a inverno, tirando uma ou outra
Pouco mudou dos tempos em nós. Tudo dói, mesmo as alegrias
Se o amor não mais queimasse, eu bem que desnascia e acho que era feliz
Ah! Aquela menina a quem ensinaste libertar o sonho poeta
Não costumou brincar de tempo, só de poesia
Ah, será que lembrarias do José?
Envelheceu também
Mas continua na mesma esquina
Naquela antiga encruzilhada
E do primeiro amor, do José, dos gritos, da gente
Ficou de tudo um pouco
--------entre os ratos e elegias das minhas alegrias
Do meu primeiro amor
não ressuscitei impune
Nove dias antes do aniversário
Ele me deixou seu mundo e nunca mais morreu
Saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou
e “do maço
------------------_ vazio _ de cigarros, ficou um pouco”
Pouco mudou dos tempos que foram
Quando entre os brinquedos e o futuro
Ríamos e chorávamos juntos
“O amor não tem importância”
Disse-me certa vez um poeta
Por quem me apaixonei no berço
Pouco mudou dos tempos de antes
O canto nunca mais foi cego
E o espasmo
(longo demais para ser feliz)
Ainda incendeia as carnes
Tudo dói e todavia ouço suspiros mais altos
Do que os gritos que sempre me assombram
Sim, a minha boca verte cheiro de mato
Embebedo homens na rua
Amo dançar nua ainda e te traí umas vezes
As estrelas continuam marcadas na inocência do céu
Como cicatrizes, de verão a inverno, tirando uma ou outra
Pouco mudou dos tempos em nós. Tudo dói, mesmo as alegrias
Se o amor não mais queimasse, eu bem que desnascia e acho que era feliz
Ah! Aquela menina a quem ensinaste libertar o sonho poeta
Não costumou brincar de tempo, só de poesia
Ah, será que lembrarias do José?
Envelheceu também
Mas continua na mesma esquina
Naquela antiga encruzilhada
E do primeiro amor, do José, dos gritos, da gente
Ficou de tudo um pouco
--------entre os ratos e elegias das minhas alegrias
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Sobre o meu caso de amor com um rio submerso numa cidade que mostra os dentes e sua gente
Vi o céu ao longe
Confundia-se em rio
No meu horizonte
Confundia-se em rio
No meu horizonte
Um rio azul
Ao longe
De perto
Água turva
Lamacenta
Doída
Ao longe
De perto
Água turva
Lamacenta
Doída
Meu nome é Capibaribe
Não me venha dizer que sou azul
Nunca fui anjo
O que sou é beleza
Só por saber-me água
Que passa
Que segue
Que lava
Que larva, suja
Espírito morto
Saindo do ovo
Navegando a vida
Não me venha dizer que sou azul
Nunca fui anjo
O que sou é beleza
Só por saber-me água
Que passa
Que segue
Que lava
Que larva, suja
Espírito morto
Saindo do ovo
Navegando a vida
Dores da lida
Mordidas banguelas
Beijos sem línguas
Fomes sem peixes
Caranguejos errantes
Mordidas banguelas
Beijos sem línguas
Fomes sem peixes
Caranguejos errantes
Moro no rio
Não no Recife
A cidade é que me corta
Em pedaços de gente
Homens inteiros
Em pedaços
Rio inteiro
Em pedaços
Eu inteira
Em pedaços
Não no Recife
A cidade é que me corta
Em pedaços de gente
Homens inteiros
Em pedaços
Rio inteiro
Em pedaços
Eu inteira
Em pedaços
Em tua lama submersa
Escrevo alma
Com a alma em lama
Nado
Nua
Águas da cidade
Do povo
Caranguejos errantes
Corpos de fome
Mordidas sem dentes
Segurando a vida
Escrevo alma
Com a alma em lama
Nado
Nua
Águas da cidade
Do povo
Caranguejos errantes
Corpos de fome
Mordidas sem dentes
Segurando a vida
Por que segues passando?
Quem dera ficasses
Tu, eu e o mundo
Em banho
Em nado
Quem dera ficasses
Tu, eu e o mundo
Em banho
Em nado
Mas o azul não há
É só a ilusão do céu
Que refletes ao longe
Em tuas águas lamacentas
Espírito morto
Saindo do ovo
Navegando a vida
Como os homens que te habitam
E como todos que te sonham em cores
Como eu
É só a ilusão do céu
Que refletes ao longe
Em tuas águas lamacentas
Espírito morto
Saindo do ovo
Navegando a vida
Como os homens que te habitam
E como todos que te sonham em cores
Como eu
Chamo-te Capibaribe
E me emprestas tuas águas
Turvas
Cuspindo-me a cara
E me emprestas tuas águas
Turvas
Cuspindo-me a cara
Mergulho
Quero lamber do cinza
O azul que se esconde
Quero lamber do cinza
O azul que se esconde
A mordida banguela
A fome
Beijei
Sorri
Amei
Emprestei meus dentes
E passei, como tu
Caranguejos errantes
A fome
Beijei
Sorri
Amei
Emprestei meus dentes
E passei, como tu
Caranguejos errantes
Agora só a pintura anil
Em teus olhos negros
Lamacentos
Em teus olhos negros
Lamacentos
Não, emprestarei meu riso
De novo
Meu amor
Minha mordida
Segurando a vida
Dos homens sem dentes
Que te habitam
De novo
Meu amor
Minha mordida
Segurando a vida
Dos homens sem dentes
Que te habitam
Beberei da tinta azul
Eternamente
Lavável
Menos no corpo
Sangrando embriagado
Em tua lama
Em tantas almas
Eternamente
Lavável
Menos no corpo
Sangrando embriagado
Em tua lama
Em tantas almas
terça-feira, 11 de setembro de 2007
Noites de Yelda
Uma editora do Rio de Janeiro premiou o poema abaixo com uma menção honrosa num concurso de poesias. Foi bom, fiquei feliz. Agora divido com vocês, meus amigos, meus confidentes, que conheceram o "barro cru" como um segredo.
As minhas noites de yelda*
de repente estão claras.
A insônia me habita,
mas não sem estrelas.
A língua me lambe em brasa,
o silêncio me rompe em dores
e prazeres.
Estou nascendo!
As minhas noites de yelda
são desenhadas por brilhos meus
e, como eu,
não esperam pelo sol.
Vou me lambuzar de melancia
e de águas azuis.
Ao contrário da crença,
só porque quero a sede
do verão seguinte.
*No Afeganistão a primeira noite do inverno, a mais longa do ano, é conhecida como a noite de yelda. Envolvida por mistérios, acredita-se que quem comer melancia nesta noite, não terá sede no verão seguinte. Para os poetas, é a noite sem estrelas; a mais longa do ano e completamente escura, quando os que sofrem de amor esperam dolorosamente pelo sol para que ele possa trazer a pessoa amada.
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Instinto
Tenho lágrimas quentes, medos que dissolveram muitos aços
Tenho olhos que dizem mais do que multidões, mesmo fechados
Tenho dedos feitos de delicadécio, elemento ainda não desenhado
--------------------------------------------------------na tabela periódica
Tenho uma dor feita de mundo, dilacerando o profundo nas janelas
Míopes e afiadas, escorrendo garfos de prata em minha garganta seca
Tenho quase tudo além da inocência que logo me matará de novo
Ontem ganhei mais dois dias de vida e fui à feira procurar multidões
De corações... Não para amar, para triturar com os dentes
refazê-los no ventre e saciar a eternidade
Voltei para casa sem nada, sem olhos, sem dedos, sem lágrimas
Todo o delicadécio entranhado nas mãos não salvou um homem
---------------------------------------------------------------nem a mim
E ontem ganhei mais dois dias de vida
No corpo inteiro para gastar entre nós
Do aço nas lágrimas quentes
permaneço amolando as facas
Hoje não suporto talhos, arranhões, nem tiros de raspão
Só quero aquilo que rasga, lacera, atravessa
Arrotei! É que acabo de comer dois corações
um deles era o meu... e por enquanto me acalmo
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Poema de mulherzinha
Depois de ir ao céu e voltar trinta e duas vezes
Tossi sete penas de anjo bêbadas de sangue e uma branca
Desci mais um pouco e me vesti de fogo
Inspirei novas fontes rubro-violeta-amareladas
Inventei mil e sete degraus plantados
Entre as tripas cozidas no ventre
Para subir e descer sem asas e sem chão
Perdi-me entre os cacos achados no corpo
Ontem me mandaram de volta à terra dos sonhos
Virgílio e Dante eu vi, mas longe demais
Para tocar-lhes os lábios e também Beatriz
No exílio sem porto, sem véu, sem inferno
Sem morada fixa construí um terraço
Acho que por isso, atrás da boca sinto assim
Como uma galinha de cabidela recheada de mim
Num mundo-moela misturando ao meu caldo
A fome de olhos alheios, peitos, risos e sobrecus
Temperados com sal, pimenta, coração, fígado e alho
E um pouco de cachaça
arrotando uma esperança
na tentativa de um poema
que junte sete penas bêbadas de sangue
e uma branca
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