segunda-feira, 2 de junho de 2008
3x4 em preto e luz
Suas mãos sementeiras
Cheiravam a sangue fecundado
Ali, de quatro, pari a primeira
A herdeira universal dessa cara e dessa cor
Vermelha, fedorenta, um verme de carne
Docemente embalado no fundo de uma água suja
Ali, despindo a tristeza, todo o meu desejo
De amanhã escorria entre os seus dedos
Estropiados de uma pureza alheia a tudo
Que nome poderia dar a filha do espasmo
À criança cravada em meu dentro
Empalhando a beleza de trevas e de loucura?
Vem, segue os meus pés, essa dança
Escura como o pó daquela criança
Esses riscos, esses rastros
De muitos gritos num ventre infantil
As cicatrizes são o mapa a mim permitido
Para achar a trilha de um outro paraíso
Que também nunca te pertenceu
Cicatriz não dói, só marca
E merthiolate arde, mas sara
Nem o merthiolate, nem a ferida
O bom mesmo da vida
--------------------------é o soprinho
quinta-feira, 22 de maio de 2008
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Sobre pássaros e homens
Cercado de jaula um passarinho
Na gaiola a sua casa, sozinho
Canta a tristeza pela ausência do ninho
Ou mais pela mudez das asas?
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Oração ao tempo
Futuro
Intacto
Imóvel
Lá, sempre
Presente
Dança
Salto
Aqui, atado
Passado
Olhos no rabo
Só caminha para frente
Tempo
Fragmento
Silêncio
E pés
Recebe querido
Come, usa os dentes
Tudo isso é teu
A conta já foi paga
Por um desconhecido
Um parente qualquer
Talvez teu pai
Talvez o filho
Eis o corpo de Cristo
Trepa nele
E vive
quarta-feira, 16 de abril de 2008
O pão de Íris
Manhã de pássaros
Amanhã cozido
Amanhecido
Dentada banguela
Seios sugados
Enternecidos
Mulher da vida
Amolecida
Na boca do tempo
Noites de fetos
Nunca nascidos
Dias de homens
Que não voltaram
Com o pão quentinho
Para o amor e o café
Mas Íris, cravada de fé
Íris sangrou liberdade
Dançou a dureza
Na ponta do pé
Grávida de pureza
Em todas as veias
Amassa nas mãos
A hóstia das ceias
------------------------Faminta
É mãe pelo sêmen do vento
Vive a gargalhar, é contente
Caminha mascando céu e infinito
Nas pegadas do próprio ventre
E voa
terça-feira, 8 de abril de 2008
Desencontro ao redor dos tempos
Joelhos rezados sobre o chão
Terra batida, vermelho, barro
Sol escaldante secando a escuridão
Seus pés de estrada em passos surdos
A respiração se ia inimiga do vento
O peito úmido, emudecido e só
Sedento de amor meu coração tremia
Como se todo aquele sangue fosse seu
E era, ao lado, a minha fotografia
Doce e altaneira a velha senhora
Cavalgando em nossa dor sorria
Na boca que ontem era boca ainda
Em frente seguia em seu corpo fecundo
E o meu homem ali, largado
Estatística em cascas de árvores mortas
Não, não haverá enterro nem foto nos jornais
O seu corpo foi vítima da decomposição do mundo
quinta-feira, 27 de março de 2008
Sexta-feira da Paixão
Aqui e agora estou celebrando a vida
Não me importa o que trarão os ventos
Não me importa se terei mais à frente
Nem menos
Do passado ao meu redor
Perdôo o rabo que me foi dado
Bicho que sou
Aqui e agora estou celebrando a vida
Meu único e exclusivo bem sagrado
O resto foi feito pra dividir
Que absurdo!
Até a vida. Bobagem a minha.
Tenho tudo porque não tenho nada
Aqui e agora estou celebrando a vida
Se creio em Deus, na Ressurreição?
Não quero fazer mais pelo amanhã, o depois
Devoro o hoje com a força de mil leões
--------------------------------Enternecidos
A eternidade não é a casa desses tempos
Dos nossos corpos, paixões, nascimentos
A paz também se faz na dor do luto?
E tudo já não morreu o bastante?
Das armas que uso o riso é a mais cortante
É só mirar com cuidado
Para não aprisionar os vivos
Nem ter pesadelos com rostos
Que não cabem num inimigo
Aceito qualquer soldado
Do meu lado ou do outro
E os amo
Enterrei o amanhã nessa briga
Não por não querer o seu braço
Acredito mesmo que é na infância
Das coisas que se planta o seu prado
Planto
E o que é o hoje, senão uma criança
Ávida por cuidados e pronta para ser
Sempre?
Aqui e agora estou celebrando a vida ora
Metralhando você
E pronto
Assinar:
Postagens (Atom)