segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sobre a fome dos meninos e as sobras dos homens


Cem olhos engolindo as asas
Dos urubus sem penas
Na distância da calçada

Ossos brancos no saco
Claros como a paz. Fininhos, quebrados
Eram meus restos mortais

E todo sentimento, que lixo!
Mastigado na sobra dos pássaros
Devorando toda a fome do céu

De azul, só sobrou o saco
Porque era noite. E chovia

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Lugar-comum


Rosas se contorcendo pelo chão
Pétalas vermelhas caídas
Traídas nos punhos da razão

Amantes cerrados nos parapeitos
Dos muros abertos na memória
E as dores do mundo no leito

Onde já deitaram tantas bocas
Amor, essa mordida da vida
Corpo e alma em colapso

E o grito de sempre no espaço
Dessa palavra tão simples
Quanto a respiração das rosas

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Para nós que comemos a vida

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O ronco vazio dos homens secos anunciava a hora da fome. Eu que há muito não sinto dores minhas, seguia em lágrimas pelo mundo doente, comendo a existência, alimentando-me do amparo em saciar o dia com meus pedaços de carne viva, doando risos, salvando sonhos, esses intervalos entre a felicidade e a vida.
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Hoje o nada já não é se estiver cheio de mim e isso me basta para caminhar, mas tem o vento que arrasta a vela e ainda que o corpo grite o desejo de desbravar o oceano da alma, o vento é capaz de mudar o rumo dos barcos ao amanhecer, simplesmente mudar.
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Entreguei-me ao acaso das horas vivazes como sempre, inteira, devorando entre os dentes o gosto das frutas colhidas ao lado do outro, humanos insanos, que como loucos e como eu se alimentam do ser. As horas morrem rápido e para não se entregar à dor de enterrá-las, é preciso viver cada uma delas intensamente, como se fossem sempre o último espreguiçar antes do anoitecer de todas as luzes.
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A mesa posta sobre os corpos, tão bela quanto a inocência de uma infância sem pesos, fortalecia-se de cheiros. Eu sabia que a refeição seria prazerosa e não havia tristeza alguma em degustar as migalhas como a um maravilhoso banquete.
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Existia qualquer odor de febre entre uma dentada e outra, mas uma febre deliciosa mostrando que a felicidade está sempre em saciar a fome do outro, como se fosse a nossa própria avidez e que é.
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Ainda que as vísceras do mundo inspirem a anorexia, nem tudo merece ser vomitado. Há colheitas raras que nunca serão esquecidas no caminho gustativo do extenso paiol dos sensíveis, mesmo que perecíveis, subtraídas da eternidade, serão sempre alimento nos momentos que desprendem suas raízes da terra, e não simplesmente comida.
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O gosto da vida é algo presente em meu hálito e a cada refeição recheio ainda mais o pensamento de que dividir a mesa posta com afeto já se traduz em si numa forma de saciedade. Comer, nesse caso, é só a concretização física de algo que já havia nutrido a alma antes mesmo do corpo pedir a sua parte.
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As lágrimas derramadas pela dor do mundo sangrando são adubos para esse pomar sem dono, que floresce mesmo no inverno, mas não brota maduro. Para comer o fruto inteiro é preciso dançar com o tempo, no compasso mais terno possível ao espírito, até que as sementes se transformem em asas, fecundando novas terras, criando outros jardins, espalhando o pólen das flores escondidas na vastidão frondosa da alma, guiado simplesmente pelo rumo impreciso do vento.
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Mesmo que a gargalhada vazia dos homens secos que provocam meu pranto se misture aos cantos dos pássaros nas copas, o som do canto será sempre mais belo e tão real quanto. Acompanhemos a música, comendo cada nota como se fosse a própria vida, afinal o hoje nos foi dado de presente e também a nossa mesa farta de migalhas, saciando a fome de dar e receber na mais doce e mais valiosa de todas as trocas: o afeto.

sábado, 18 de outubro de 2008

Crise de asma


Um encontro com Van Gogh debaixo do umbuzeiro

Os meus olhos
Começam no peito

Isso dói na cegueira
De seguir vivendo

A dádiva de ver
É o que me salva
E também o que me mata mais

Toda vez que olho o sol
Como se ele me acendesse

E isso é antigo como uma criança

Agradeço todos os dias
Meus seis graus de miopia peitoral

Como um fumante tranqüilo agradece
O cinza que leva por dentro

Respiro com o coração
Amo por todos os poros

Sem a miopia não molharia o espelho
Como o oleiro cria o barro em suas mãos

Nem suportaria olhar o sol
Até dividir o vermelho
---------------------e dormir
E cobrir tudo de tinta

A noite é o sol mirando um outro corpo
As estrelas, ora sonho, ora gozo
Ora saudade do ingênuo pesadelo

Será que Van Gogh sofria de asma também
Ou era só xantopsia?

O bicho-papão nunca vem
Mas a Bicha Bruzacã habitou meu quarto
Em carne e osso nas janelas do Sertão

Quem já viu a cor da dor
Em suas vestes amarelas
Faz da vida a sua arte
Nebuliza desertos
Cicatriza geografias

Se alimenta do azul
No mesmo pote em que morre de sede

A natureza sertaneja não se farta de nada
Mas tem olhos mais bonitos que o sol em pessoa
Quando crava em terra seca a esperança da chuva

E a lua daqui é imensa nessa luta. Linda!
Como o peito da criança asmática

Tá tudo bem pequenina
Os girassóis também são tristes


“La tristesse durera toujours”
(Vincent Van Gogh)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Expiração


Hoje as asas em meu peito
Batem ainda mais dentro

Desejo o silêncio
Quero trepar com ele
Me lambuzar em seu sal
Arder cicatrizes

Ouço vozes
A natureza
Desavesso

O vazio que vemos
Nem é real
Ecoa a vida

Levamos corais nos seios
E em si o sol dos vôos

Tristes?
Felizes?

O mesmo número de letras
Não sós, todos juntos
Os eus do mundo

Pássaro torto
Feio e flor
Vida e vida
Tudo mais

Dois com infinito
Noves fora nada

Luz e escuro
Sol e muro
Céu e outro
E eu, e tu

A gente
O que é plural singular sendo

Silêncio é música ou grito?

O invisível não mente
Diz
E pronto

Que dádiva meu Deus!
Danço com o vento
Como quem traz poesia

Com rima ou sem rima
Ouço os segredos do tempo

Dou a voz que nem tenho
Pela nossa alforria

Mordendo o dia
Lambendo o gozo em nossos pés
Beijando a terra em nossos lábios

Parindo estribilhos
Nesse mesmo ventre
Onde cantam nossos filhos

Hoje as asas em meu peito
Batem ainda mais dentro
De ti

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A história da gaiola que engoliu vivo um sabiá


Como ouvir o grito
Dessa beleza alada
Que destinada ao infinito
Na imensidão do nada
Só aprendeu a cantar?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Poesia natural


Comi milhões de sementes hoje à tarde
Meu ventre está pleno de árvores

Respiro, respiro, ar, ar
De cócoras, força, mais força

Asas e raízes
São muitas
Estão vindo

Já se vê as copas coroando
O vento ajuda, meu macho
Escancara minhas pernas
Água, mais água, mais água

Como dói, como salva!

São galhos do ofício
Sou apenas uma puta
Devoradora de semens
Doadora de frutos

Escrevo como um bicho

Afora essa luta
E o sangue na vagina
Sou tão menina
Quanto os pais