terça-feira, 12 de maio de 2009
A visita
Ela chegou
Engolindo tudo
Com sua língua-mundo
Engravidou meus olhos
Espelhou o rei
Esquartejou azuis
Ressuscitou os mortos
Amamentou silêncios
Ofuscou até o mar
Louvou descaradamente
Os amores secretos
E disse: até amanhã
Hoje entre nós duas
Somente a poesia
E o Sol
segunda-feira, 13 de abril de 2009
La mer
"O fenômeno das marés é o efeito da atração gravitacional recíproca e simultânea entre o Sol e a Lua e as águas dos oceanos".
(Newton)
Veias expostas
Hemorragia azul celeste
Entre ossos de pedra
Se dá, se oferece de graça
Fome de saciar sedes
Água que não se basta
Come terras
E homens e rios
E tudo ao seu ventre
Volta eternamente
Numa dança diabólica
E santa
O mar é frágil como toda mulher
segunda-feira, 30 de março de 2009
Hoje
Hoje teu sorriso trêmulo
Enlaçado à criança devorada
Na fome antepassada do teu sangue
Jogou-se em meus braços
E morri contigo
Infantilmente casta de amor
Agora tuas mãos espelham meus lábios
Teus pais se recolheram ao leito
Minha boca se espalha em teus dedos
Imensa, mas sem dentes
Para que a eternidade não se apavore
Por hoje termos nascido juntos
segunda-feira, 16 de março de 2009
O jogo dos contrários
As coisas se quebram rapidamente
Como um pássaro canta na janela
Une todo o tempo e todo o céu
Dentro e fora do corpo. E vai.
Só as janelas ficam
Emolduram o vazio do mundo
A desnudez daqueles que andam
Sem pés, sem roupas há tanto
Canto à espreita da noite
Como um bicho no cio esquece a caça
Ao ferir-se de paz na hora do gozo
Danço, salto, deixo as janelas para trás
Os olhos escorrem nos cacos da vidraça
O fundo, o mar, a fragilidade do porto
As coisas se fundem rapidamente
Como mariposas na violência da luz
A ausência do pássaro também tem suas asas
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Antonio Porchia
"No, esto no es sueño. Pero si esto que no es sueño no se convierte en sueño no dura, porque de todo, de todo, sólo dura el sueño."
sábado, 21 de fevereiro de 2009
A despedida e o presente do pássaro
para Flocely
Para que mais corações?
As terras que se foram
São as mesmas que ficaram
Grávidas de outros solos
Pelos corpos que nelas gozaram
Seus tempos de luta pela vida
Os peitos intumescidos pelo vento
Se despedem como aves que pairam
Livres da missão de ir embora
Apenas voam
Para que mais corações?
As terras que se foram
São as mesmas que ficaram
Grávidas de outros solos
Pelos corpos que nelas gozaram
Seus tempos de luta pela vida
Os peitos intumescidos pelo vento
Se despedem como aves que pairam
Livres da missão de ir embora
Apenas voam
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
E quando a noite se foi...
para Juan Gelman
Enquanto meus mortos se perdiam em terras
Entristecidas aos pés de tantas sombras
As pedras no pátio cantavam as flores brancas
A pele tão jovem nem sabia do suor e do silêncio
Guardados nos gritos da casa ao lado, sempre tão perto
Um dia nas sobras do mesmo teto
Brotou a sinceridade do jasmim
Todos os segredos naqueles corpos
Exalando meus próprios sonhos
Na rouquidão dos nossos cheiros
Foi tudo o que vi das armas e dos nomes
Que escondi sob os versos nas retinas
Todas as vozes cravadas na mudez da menina
Repetindo rimas sem rosto, hermanas varizes
Enquanto lhe acendiam na carne a eternidade das cicatrizes
E quando a noite se foi, o jasmineiro também ainda estava lá
Enquanto meus mortos se perdiam em terras
Entristecidas aos pés de tantas sombras
As pedras no pátio cantavam as flores brancas
A pele tão jovem nem sabia do suor e do silêncio
Guardados nos gritos da casa ao lado, sempre tão perto
Um dia nas sobras do mesmo teto
Brotou a sinceridade do jasmim
Todos os segredos naqueles corpos
Exalando meus próprios sonhos
Na rouquidão dos nossos cheiros
Foi tudo o que vi das armas e dos nomes
Que escondi sob os versos nas retinas
Todas as vozes cravadas na mudez da menina
Repetindo rimas sem rosto, hermanas varizes
Enquanto lhe acendiam na carne a eternidade das cicatrizes
E quando a noite se foi, o jasmineiro também ainda estava lá
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