quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

corredor para uma infância

para minha mãe, que no roseiral, nosso umbigo nas mãos, cavou aquela terra com as próprias unhas...

a casa
o quintal
o cheiro de café

choro sobre a rosa
o cordão umbilical

nas mãos secas
do velho lar
sempre será tempo de flores

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

amor carnal

para Sama

quando olhava os poros dos teus braços

sabia que o tempo
nunca estava em silêncio
----------------- e doía!

como era possível amar tanto
aqueles braços só dele?

era assim esse amor hoje
feito da rotina e crueza
de benquerer esses poros

dói!
às vezes...

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

da série paradoxos existenciais

5:5:5

em sua busca pelo fogo
quanto mais sede no ventre
o frio é
------falta que mata e queima

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

uma flor no asfalto

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quase fui atropelada
para roubar do asfalto
uma flor ao relento

espasmo e dádiva
num cinza sem volta

como esmagá-la
na memória
do que não vi
com seu amarelo tanto?

parti ao seu encontro
cheia de cegueira no passo
vento nos cabelos e nos seios
poeiras em festa por dentro

pisada de guerreiro
salvando o mundo

trouxe a flor para casa
esculpi o melhor dos jarros

viverá quatro ou cinco dias
alimentando meus olhos

e só agora me dou conta
da gravidade do gesto

esquecida no asfalto
com a morte mais perto
parecia mais livre

terça-feira, 3 de setembro de 2013

elogio da dúvida ou um dia feito à mão


beleza demais também dá medo
olhar o seu avesso às vezes
tem o mesmo nome

hoje do nada piamente
acreditei nos anjos

isso, também às vezes,
me acontece...

talvez o mar
talvez loucura

talvez em algum lugar
a vida seja mesmo
esse imenso bordado

terça-feira, 16 de julho de 2013

Rente


A morte...
outra vez perto
Dentro, como antes

Sem pesos,
apenas se diverte
Pisa e vive comigo

o chão nosso de cada dia

Ventre, avesso e certo
Rente, aqui

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Comediazinhas


"Se existem anjos
acho que não leem
nossos romances
sobre esperanças frustradas.

Receio que - infelizmente -
nem os nossos versos
reclamando do mundo.

Os espasmos e os gritos
de nossas peças teatrais
devem - suspeito -
impacientá-los.

No intervalo de seus afazeres
angélicos, isto é, não humanos,
assistem antes
às nossas comediazinhas
do tempo do cinema mudo.

Aos que se lamentam,
rasgam as vestes
e rangem os dentes,
preferem - penso eu -
aquele pobre-diabo
que agarra o que se afoga pela peruca
ou faminto devora
o cordão do sapato.

Acima da cintura peitilho e pretensão,
abaixo um camundongo assustado
na perna da calça.
Ó sim,
isso é que é diversão de verdade.

A perseguição em círculos
vira fuga à frente do que foge.
A luz no fim do túnel
se transforma num olho de tigre.
Cem catástrofes
são cem alegres piruetas
sobre cem precipícios.

Se existem anjos,
deveriam - assim espero -
estar convencidos
dessa alegria que oscila no terror
e nem sequer grita socorro socorro
porque tudo se passa em silêncio.

Ouso até imaginar
que aplaudem com as asas
e que de seus olhos caem lágrimas
pelo menos de riso."

(Wislawa Szymborska)