domingo, 27 de março de 2016

carne viva

tudo nasce do encontro
tudo se existe no outro
e tudo passa

a um passo da vida
onde passam
todos os milagres

um em cada seis humanos
ainda sente fome

tarde demais para ser pessimista
acredito na vida

na natureza
na dança
nas crianças
nos milagres

e ofereço meu fígado com afeto...
toma querido, sem cerimônia, come!

sábado, 26 de março de 2016

diário corporal


hoje vi uma rolinha
capturada já adulta
presa numa gaiola

meu Deus, que desespero...
ferir a própria asa no agito
amputada de voar...

a minha avó cuidou da asa com zelo
diz que canta bonito
não tive coragem de libertar

é o novo mimo dela, viúva há tanto
mais de noventa caminhando
lúcida como poucos

a mesma que tentou matar
quase agora um cassaco
a pauladas no quintal

 jorrou água pela casa...
e uma poça de sangue
“era tão bonitinho!”

ela disso isso e no olhar
a maior doçura do universo
era toda amor, acertou na cabeça
e o bicho fugiu

foi  ela quem me contou
a história da avó Fulni-ô
“pega a dente de cachorro”
no meio do mato...

a natureza e suas constelações
cheias de espelhos ancestrais
na pureza furta-cor
de um pássaro preso

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

visões ordinárias da vida-borboleta

a lua cheia
uma águia de asas abertas no céu
uma bolha de sabão bem de perto

uma estrela cadente e uma criança, juntas
a palavra consente no coração de um louco

uma poça a refletir o sol
nos ombros do amigo

uma flor amarela
entre escombros

infinito-abismo
liberdade-cárcere
de ser apenas

esse terrível assombro
mortalmente bela

terça-feira, 17 de novembro de 2015

canto ao guerreiro em meu cheiro de cravo

até fomos amigos
filhos e encantos

crianças desprovidas de vestes
desvestidas de máscaras
amantes sem amanhã

até caminhamos de mãos dadas
nos olhamos por dentro
expulsamos escuros refazendo mapas

até retecemos a luz
entre os corpos suados
sem vontade de ir

guerreiros em paz
a salvar um mundo

na memória das mãos
o amor é tão nosso
que nem carece de nome

sagrado em ter nascido
sem querência nem fome
de sua própria geografia

sábado, 7 de novembro de 2015

sob o canto das baleias

(com uma gratidão infinita aos milagres do tempo e à mágica desses acasos-encontros tão inevitáveis quanto a vida)

ando distraída na morte
despreparada no mundo
sorrindo, em risco constante
o amor, ele...
às vezes passa com um movimento
de cabeça e olhos como se usasse da fé
às vezes lambe com a língua de todos os animais
às vezes simplesmente se devolve em dentes
às vezes lodo
às vezes campo
às vezes fogo
às vezes nada
às vezes corpo
às vezes medo
às vezes limbo
às vezes caldo
às vezes pão
às vezes tonto
às vezes tanto
e sempre mais
somos só um intervalo
entre o não ser e o além
um mistério, um milagre
só exijo amar
caminhar distraída
na morte e na vida
nua e selvagem
como a serpente que me guia
abrindo na terra outros leitos
para as águas que virão
das profundezas azuis
desse infinito antigo

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

de águas e de ar

fui pega de surpresa aos 40
cheia de infâncias
e olhando o mar...
inauguração sem fim
de tanto espelhar o céu

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

corpo cotidiano

todos os dias
a vida me atravessa
em dores próprias e alheias
e sou indefesa diante de nós

todos os dias
tenho medo

todos os dias
uma visita me bebe

todos os dias
uma velhice se brota

todos os dias
o abismo

todos os dias
o riso

todos os dias
a morte

todos os dias
o gozo

todos os dias são tantos
regaços em chamas
ou tempestades e ventos
ou mar, tufão, redemoinho...

todos os dias
amo mais e caminho

todos os dias
o adeus nos olhos
e o abraço pronto