Amanheci má,
desejando o bem a qualquer réstia, qualquer pó, qualquer coisa que se mova
longe de mim... Indefesa e forte como a morte em todos nós... Cansada de tantos
eus e meias palavras fantasiadas acordei mordendo os gatos da casa, rosnando
mágicas como uma loba sem alcateia. A boca está cheia de pelos agora, o que é
um bom alimento ao silêncio que precede o nada... E hoje é dia de não quero... Hécate, Medeia, Lilith, tudo pulsa fêmeo... Por Deus, não
me peçam amor, não hoje, não aos meus cavalos soltos, cascos selvagens,
correndo em alto mar... Asa de barata, veneno de cobra, uma pitada de currry e
pimenta à vontade... Areia movediça, flores carnívoras e ervas daninhas...
Plantar a 53ª árvore dessa vida, amassar o esterco com as mãos nuas, a bosta
toda se espalhando entre os dedos, enquanto os pés misturam a terra às cinzas
quentes da fogueira há milhares de anos... Só a Natureza pode entrar, a
qualquer voz humana: Mantenha distância!
quinta-feira, 7 de abril de 2016
segunda-feira, 4 de abril de 2016
espiritualmente orgânico
no caminho da cura onde mais dói
é onde mais precisa ser tocado
é onde mais precisa ser tocado
honro, agradeço, massageando
com apreço meu nobre fígado
a transmutar todos os venenos
a transmutar todos os venenos
domingo, 3 de abril de 2016
meu querido Sertão...
não se fecha uma porteira sem sentir
tudo o que se deixa para trás
tudo o que se deixa para trás
prefiro as porteiras
aos muros e às portas
aos muros e às portas
a visão do fechamento não encerra
uma superfície sólida, ao contrário,
abre uma paisagem na saudade
uma superfície sólida, ao contrário,
abre uma paisagem na saudade
vastidão e solidão
são coisas que me cabem
são coisas que me cabem
como as flores no deserto
terça-feira, 29 de março de 2016
visões ordinárias de uma vida-borboleta em estado Terra
hoje a qualquer encontro
não estarei isenta o suficiente
para não perturbar teu olhar
não estarei isenta o suficiente
para não perturbar teu olhar
peço perdão por delicadeza
e me entrego aos desígnios
do Grande Mistério
e me entrego aos desígnios
do Grande Mistério
aceito tudo que brote no caminho
aceito tudo que morra na caminhada
honro e honrarei cada passo
aceito tudo que morra na caminhada
honro e honrarei cada passo
cultivando flores
entre as pedras da estrada
ouve atentamente um segredo:
entre as pedras da estrada
ouve atentamente um segredo:
sementes de flores são deusas
mudas, são magas
mudas, são magas
segunda-feira, 28 de março de 2016
respiração
para Sama
não faz muito
tua ausência
doía tanto em mim
de fazer e refazer
conheci respirar
hoje vi algumas teias
de aranha na tecedura
dos teus retratos
uma delas, bem antiga
entre a minha foto e a tua,
quer dizer... entre as nossas infâncias
domingo, 27 de março de 2016
carne viva
tudo nasce do
encontro
tudo se existe no
outro
e tudo passa
a um passo da vida
onde passam
todos os milagres
um em cada seis
humanos
ainda sente fome
tarde demais para
ser pessimista
acredito na vida
na natureza
na dança
nas crianças
nos milagres
e ofereço meu
fígado com afeto...
toma querido, sem
cerimônia, come!sábado, 26 de março de 2016
diário corporal
capturada
já adulta
presa
numa gaiola
meu Deus, que desespero...
ferir a própria asa no agito
amputada de voar...
a minha avó cuidou da asa com zelo
diz que canta bonito
não tive coragem de libertar
é o novo mimo dela, viúva há tanto
mais de noventa caminhando
lúcida como poucos
a
mesma que tentou matar
quase
agora um cassaco
a
pauladas no quintal
jorrou água pela casa...
e
uma poça de sangue
“era
tão bonitinho!”
ela
disso isso e no olhar
a
maior doçura do universo
era
toda amor, acertou na cabeça
e
o bicho fugiu
foi ela quem me contou
a
história da avó Fulni-ô
“pega
a dente de cachorro”
no
meio do mato...
a
natureza e suas constelações
cheias
de espelhos ancestrais
na
pureza furta-cor
de
um pássaro preso
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