segunda-feira, 20 de março de 2017

desejo de lua minguante

quero abrir a porta da rua
e encontrar gente
pulsando com o vento

essas caras perdidas
entre mentiras e meias palavras
ainda e além, me deixam cansada

quero multidões de corações
em carne viva, pulsando

quero só essa imagem fútil,
pobre de tão gasta

sexta-feira, 10 de março de 2017

minha humanidade possível

sou da falange dos fracos
loucos do sentir

enquanto grito e resvala
o sangue na pele, ainda

olho as minhas garras
meus dentes que pingam

invoco deuses estranhos
duvido de todos eles

calo
sacio as mãos no vento

evoco deusas sombrias
me abismo
e lembro de nós

sangue endurecido
cheira a ferro e cicatriz
enquanto ninguém morreu

...

ouço as solas dos pés
corro solta na água

o som dos cascos ecoa
caio

sou da falange dos fortes, também
e mordo porque acredito no amor

domingo, 8 de janeiro de 2017

violentamente viva

se bater
revido
e aviso
sou muito perigosa...

só que no dia-a-dia
preencho força de amor...

nada especial
um tipo de amor simples
que gero, gesto e danço
entre milagres e espasmos

incluindo os ossos, as marcas
a pele, as dores e as pedras junto

tem sido um belo escudo
e uma bela espada

a cantar em tudo
“meu tempo
é quando”

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Para(á) no corpo

(para Thales, hoje)

a infinitude das margens
parindo um milagre todo novo
abrindo uma beleza inaugural
da violência divina em meus olhos

vastidões de transbordamentos
no giro incansável do corpo
pele, músculos, sangue, ossos
memórias, pulsos e acasos

ajoelho, rio e choro
por tudo que amanhece aqui
entre ocasos e esperas

na voz de uma imagem sem antes
invocando lonjuras amazônicas
de águas doces em mim

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

saturno em câncer

e eis que num dia comum
nublado como tantos

dei de nascer sem querer
amando tudo o que me move

como um cavalo selvagem
e aquele vento-crina
no ritmo dos cascos
na água

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

porta-retrato em riste

lembro bem do longo corredor
lembro bem da força do escuro
da leveza pesada das sombras
do ardor e dos sopros

trouxe comigo os trapos da infância
e todas aquelas desnecessidades
para plantar no vento dos olhos
outros espelhos nos agoras de sempre

as ausências no espelho gritam
no vazio refletido antes da imaginação

a morte é feita
de tantos nascimentos
que tem precisão de sangrar
para se crer enquanto espasmo

dos desmaios e das faltas de ar
dei para soltar polens de intentos
nessa espera das palavras
antes mesmo dos silêncios

arrancando com as unhas a pele do abismo
e protegendo todos os meus umbrais

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

uma oração antiga para saudar o dia

(diário corporal, em louvação ao que a morte fecunda)

peço licença
para entrar nesse lugar
que também é meu

peço licença
para ser e para dar
o que pelo Grande Espírito
me for dado oferecer

peço força, coragem e sabedoria
para ouvir os desígnios do Grande Mistério

e humildade e fé
para o caminho que se inicia
e o que permanece

aqui estou
aqui me dou
aqui me entrego

Aqui recebo
o que me traga a estrada

humildemente peço é fé e luz
para os meus passos

e que em cada porta aberta
(e até fechada)
eu ofereça de bom grado
tudo o que tenho e posso
pela cura do mundo