terça-feira, 29 de setembro de 2015

sangração no teu quintal

hoje pari dois anjos
num quintal que te habita
e nada era meu

das flores em meu ventre
muitos homens, escravos e animais
foram mundo

ainda reconheço
as marcas dos pés

os dois anjos agora
me olham nos olhos

sim, esses olhos
coisa minha

o tapete está limpo como uma ovelha
mas no piso de madeira eu vi
há sangue ainda

minhas mãos são pássaros
há muitas vidas

sim, essas mãos
coisa minha
nesse quintal que te habita

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

carta de uma senhora má aos seus

é o milagre que exijo
a tudo que abraço
toco, quero e posso dar

dolorido, talvez

egoísta, um tanto

mas só o milagre eu peço

nossas crises... me cansam!

nesse mundo

nada mais me serve
nem parece real

só o milagre eu danço

na arte de amar a morte
em seu pedaço vivo

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

...

(21/05/15)

silêncio, silêncio!
dizem a chuva e o vento
as lonjuras e o mar
e as abelhas

a boca lambuzada de mel
silêncio, silêncio, silêncio!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

feita de presente

(para Sama em 29/03/09)

hoje, teu riso trêmulo
aquele de mãos dadas
à criança devorada
na fome antepassada do teu sangue

jogou-se em meus braços
e morri contigo, rindo
infantilmente firme de amor...
nunca fui tão eterna como hoje

agora tuas mãos espelham meus lábios
teus pais se recolheram ao leito
minha boca se espalha em teus dedos

imensa, sem dentes
para que a eternidade não se apavore
por hoje termos nascido juntos

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

tempero de assombros

sinto o gosto do sal
o corpo na rua
desfronteira do encontro

vida,
estranha ferida
aberta entre ventos

tu mesma o moinho
devaneio e acaso

seria triste
não fosse a beleza em riste
a cada cicatriz que planto
a cada cicatriz que abraço

morte,
hoje feri desesperos de azuis
só para tocar teu rosto
com a língua

quinta-feira, 2 de julho de 2015

inocência entre incêndios


voz, grande dádiva,

te espero sobre os telhados
contando estrelas
pisando medos
com a força de 12 velas

como os meninos de El Salvador
enquanto eu falava de amor
num ingênuo instante

voz, grita-me!
amor, morre-me!
deus, ajuda-me a matar em paz!

domingo, 7 de junho de 2015

quase eu

e eis que acordo
aos quase quarenta
e me deparo com o espelho

meu retrato de Dorian Gray
crina
          cavalos brancos e negros
galopando no vento