sexta-feira, 1 de agosto de 2025
domingo, 24 de junho de 2018
A beleza
Ele me olhava como se quisesse me roubar o segredo do umbigo primeiro, o caldo do éter primordial que me deu de presente um rosto e um corpo que se colocam antes de mim no espaço da vida míope das imagens. A imagem, esse general dos nossos tempos de novas ditaduras ocultas - e outras devassadas na cara, carregado de sua própria luz e tão cheio do nada necessário para que apenas com a nossa própria escuridão se consiga olhar... Ele desejava a beleza como algo que se toca, que se pega, que se guarda nas mãos, sem ver que beleza e amor - seja lá o que isso for, estão entrelaçados, emaranhados, nem sequer sobrevivem em duas palavras diferentes, assim como todos os seus contrários. Essa coisa que só se sente, não se vê exatamente, híbrida, intercamuflada, como a gente. E eu, que cato o avesso, me agarro ao invisível e procuro o que não vejo, eu que não sei nada do exato, ia me perdendo do seu desejo.
_ Ravi, há pessoas, seus momentos, seus tormentos, razões ocultas que as fazem esconder sua própria beleza tão profundamente que terminam afeando valiosos reflexos sem perceber. Não procure em mim o que é de você. Quando deixaremos de ser tão idiotas? E aí me incluo porque o que penso nem sempre me guia. O belo? Sempre está em tudo na mesma intensidade com que o desenterramos desse vazio que levamos cheio do nosso dentro. O belo? É. A disposição para cavar é a primeira erupção antes do nascimento das asas. A escolha pelo voo depende individualmente, de cada um, e só pode ser ouvida quando aprendemos a lamber o silêncio com um prazer carnal. Bom, no final, que é também o começo, isso sempre acontece depois de qualquer espécie de orgasmo, às vezes na cara, às vezes na alma. A beleza? Você já se olhou no espelho hoje? Calma, antes de ir, use as unhas para rasgar as entranhas que te cobrem. Liberta os bichos que te comem e morde a vida com os dentes ensanguentados desse monstro mais bonito que todas as flores do mundo. Todas aquelas que chamamos de outras superfícies são reflexos das vertigens, do giro incansável que dançamos em outro tempo, por trás dos nossos pobres olhos. Ah, meu querido Ravi, se você reparar bem enquanto estou rindo, verá que os pedaços de carne e sangue que me sujam a face são o único alimento sincero desse rosto e desse corpo que exalo.
_ Se a beleza dói?
_ Dói tanto quanto a vida. Mas tudo dói, mesmo as alegrias, é que a gente acostumou a pintar a dor de chumbo.
_ Ravi, há pessoas, seus momentos, seus tormentos, razões ocultas que as fazem esconder sua própria beleza tão profundamente que terminam afeando valiosos reflexos sem perceber. Não procure em mim o que é de você. Quando deixaremos de ser tão idiotas? E aí me incluo porque o que penso nem sempre me guia. O belo? Sempre está em tudo na mesma intensidade com que o desenterramos desse vazio que levamos cheio do nosso dentro. O belo? É. A disposição para cavar é a primeira erupção antes do nascimento das asas. A escolha pelo voo depende individualmente, de cada um, e só pode ser ouvida quando aprendemos a lamber o silêncio com um prazer carnal. Bom, no final, que é também o começo, isso sempre acontece depois de qualquer espécie de orgasmo, às vezes na cara, às vezes na alma. A beleza? Você já se olhou no espelho hoje? Calma, antes de ir, use as unhas para rasgar as entranhas que te cobrem. Liberta os bichos que te comem e morde a vida com os dentes ensanguentados desse monstro mais bonito que todas as flores do mundo. Todas aquelas que chamamos de outras superfícies são reflexos das vertigens, do giro incansável que dançamos em outro tempo, por trás dos nossos pobres olhos. Ah, meu querido Ravi, se você reparar bem enquanto estou rindo, verá que os pedaços de carne e sangue que me sujam a face são o único alimento sincero desse rosto e desse corpo que exalo.
_ Se a beleza dói?
_ Dói tanto quanto a vida. Mas tudo dói, mesmo as alegrias, é que a gente acostumou a pintar a dor de chumbo.
terça-feira, 27 de março de 2018
como se fosse um sopro
em dias de mansidão
desconfio fortemente
ser nossa missão mais divina
dar o que o coração diz no instante
com a intensidade da morte
se cuidando em todos os corpos
no intento de saúde dar-se...
e às vezes receber carinho oferecendo tudo
Mas isso é quando a guerra cessa
esse ínfimo entre estrondos e escombros
que cuido aqui de deixar vazar
como uma brisa somente
ou esses milagres da vida
que sempre estão
ah, se viver não doesse tanto
teria a mesma potência imensa
de ser tão sagrado estar aqui?
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
clamor
nasci nua e naturalmente
exerço esse estado todo dia
mas aqui, agora, enquanto falo
não, eu não estou nua
se estivesse, a polícia talvez
invadisse meu corpo,
o teatro, o museu, a casa
e me levasse algemada
braços forçados para trás
cobririam meus peitos e o sexo
com um pedaço de pano
ou um casaco qualquer
(dariam um jeito de achá-lo
entre os presentes)
seria escandaloso, obsceno
vergonhoso para alguns até
já não se pode mais
despir-se e olhar nos olhos
a arte é uma arma perigosa
não, eu não estou nua
o que você imagina sem ver
é o bicho que sou
clamando na voz apenas
na palavra, a sua nudez inata
uma oração ao milagre
de sermos corpo no mundo
e podermos sentir o vento
e a luz por todos os poros
...quando estamos nus
quanto ao estupro
nosso de cada dia...
insisto despindo o avesso
enquanto carne, viva
em sua nudez inata
sábado, 13 de janeiro de 2018
degeneradamente viva
quando em casa já não se assa o pão
e a vontade de partir não é suficiente
para simplesmente abrir o gás
o forno fechado é um buraco
e esquecer de mim é tão fácil
quanto a fecundação dos vermes
ainda assim, a luta me precede
a beleza entranhada nos ossos
no enjoo, no cheiro da podridão
a violência da voz proclama
a loucura do que pode nascer
dentro de tudo que não se vê
seja eu, outro ou você
apesar da gente, apesar do mundo
a vida pede passagem, ainda
o pão quer o gesto das mãos
amassando o encontro, punhos ativos
e o calor aceso de alguma entrega
seja amor ou grito
escuto e rasgo
como se fosse meu
gostaria de não existir tão crua agora
mas hoje libertei um assombro inato
degenerada como sou
uma igual também
entre os vermes que mato
e a força do que pode nascer
dentro de tudo que não se vêsexta-feira, 29 de dezembro de 2017
Por que seguir?
Porque estou gritando agora e ninguém me ouve. Porque eu mesma ainda não escuto toda a minha voz. Porque o meu sussurro jorra dores e paz. Porque não há razão nem loucura. Porque não quero. Porque quero mais que sempre. Porque sou. Porque me atirei do vigésimo andar e descobri que sei voar. Porque nunca fecho as janelas da casa. Porque não sou. Porque danço com a música imprevisível do vento e não caio, despenco e volto. Porque amanheço quando morro. Porque meus olhos não escondem segredos. Porque o coração canta, soprano, no mais alto tom que alguém já cantou. Porque decifro vozes que se foram, sem medo. Porque não desisto apesar do pranto. Porque não me calo e sou amante do silêncio ao mesmo tempo. Porque choro baixinho para regar o mundo todos os dias. Porque ainda não tenho todas as flores em mim. Porque pinto jardins de sonhos em qualquer parede. Porque há calos em minhas mãos e gosto, nos pés também. Porque todos os alados são minhas asas, mesmo os urubus, mesmo os anjos, os demônios, os rouxinóis e os beija-flores. Porque corto as unhas bem curtinhas para não rasgar o véu delicado da vida. Porque ando devagar, giro, salto e corro. Porque nunca paro para rezar e rezo o caminho todo. Porque não há salvação, mas existem belas veredas. Porque não chamo o amor e carrego o seu nome nas veias. Porque as vísceras são desenhos incertos traçados por estrelas cadentes na barriga. Porque o sangue não coagulou ainda. Porque não acredito na eternidade. Porque levei quarenta anos para me conhecer e todo dia descubro que sou outra e sei que é tarde demais para encontrar o não-existo. Porque não há explicação. Porque busco a sinceridade com a fome de um recém-nascido para suportar todas as mentiras e sou honesta para comigo mesma de uma maneira quase cortante. Porque dói cortar os pulsos, mas não tenho pena de ir-me. Porque errei tantas e tantas vezes e estou pronta a errar de novo. Porque adoro viver só por saber que tem um fim. Porque amo simplesmente. Porque meu ventre está repleto de pólen. Porque a insanidade queima e a lucidez também. Porque meu corpo não me pertence e é todo meu. Porque a beleza é e os feios estão apenas. Porque acredito. Porque não creio em nada somente para descobrir avessos. Porque facilmente esqueço das coisas para me espantar infinitas vezes com os mesmos milagres. Porque guardo os bons momentos na pele para sentir o cheiro das alegrias quando suo. Porque os perfumes do caminho constroem mais do que as palavras escritas. Porque os dizeres mais dentro são sempre mais belos, mas só estando nu e descalço é que se consegue escutar. Porque existem brilhos mesmo no mais negro breu. Porque há sim passarinhos que entoam músicas divinas para as estrelas e outros que chegam para beijar a aurora. Porque a lua muda toda noite. Porque fico muda de dor e ainda canto. Porque não gosto de anestesias. Porque fui feita de carne crua, mas cravei plumas em minhas costas e encontrei um socorro. Porque nunca se tem volta. Porque basta mudar o foco para acariciar novos céus. Porque não nasci de cesariana, eu vim. Porque se pode sentir o gosto de tudo mesmo usando apenas o olfato. Porque quando era criança olhava incansavelmente para o sol sem medo de ficar cega, na esperança de reter a luz nas retinas e doá-la ao redor quando preciso. Porque ainda hoje tenho pensamentos de infância e me agarro a eles com a força da minha alma velha e cansada. Porque me alimento da lama também. Porque não sei de nada. Porque o mar não morre. Porque nem todos os grilhões conseguem amarrar um espírito que masca pedaços de liberdade colhidos nos pequeninos instantes. Porque muitas coisas ainda não têm nome. Porque as lágrimas escorrem é do peito. Porque o riso é possível. Porque vale a pena. Porque sou nada. Porque tudo é tão simples quanto se pode ser. Porque sou bicho de natureza azul, vermelha, amarela, branca e negra, e honro. Porque me acendo e apago muitas vezes num movimento de rotação. Porque posso matar sedes que desconheço. Porque mesmo um beco sem saída sempre vai dar em algum lugar, basta saltar os muros. Porque os pássaros acordaram para contar a qualquer um os mesmos segredos que melodiam às manhãs. Porque a toda noite estão presas incontáveis estrelas e quando vão embora deixam o dia como regalo. Porque anoitecerá de novo. Porque ainda há muito a fazer. Porque a poesia jamais terá fim. Porque somos apenas um intervalo. Porque sim, porque sim...
sábado, 3 de junho de 2017
canto aos que não amo e para um homem bom
cantai
por mim
oh
coração em desespero
para
que eu encontre o perdão
em
minha sensibilidade morta
devo
muito aos que não amo
e é
por eles que choro, ainda
era
eu o animal
abatido
em ritual
a
lavar teus pesadelos
era
meu o sangue oferecido
escorrendo
em teus cabelos
manchando
as pedras da calçada
o
corpo, o chão, era eu...
também
sou da falange dos outros
e
danço com todos eles
acostumei
desde cedo
à
voz rude do inferno
Jesus!
não
te posso dar
toda
a fé dos meus pés
(não
suportaríamos tanta luz)
cantai
por mim
oh
coração em desespero
para
que eu encontre o perdão
em minha
sensibilidade morta
terça-feira, 28 de março de 2017
da febre do osso lacrimal
(em
noite de Lua Nova, escura, misturada)
nômade
do deserto
movedora
por sina
tecedora
de caminhos
criatura
divina
quem
te falou
que
era seguro nascer?
chora
criança, chora
o
choro ajuda a acordar
quando
os pesadelos pesam
mas
chora com doçura
que
o sal não morre
enquanto
houver o mar
quarta-feira, 22 de março de 2017
oferenda à paz que afaga a agonia
nos
foi dado gritar
e
arranhar com os dentes
nos
foi dado um corpo
com
tantas inquietações
nos
foi dada a existência
com
tudo o que pensamos verde:
folha,
musgo, mar, gafanhoto
inventamos
a palavra
suas
escravidões, perfurações
transmutações,
suas lambidas
nos
foram dadas unhas
para
seguirmos cavando
nos
foi dado tanto
nos
foi dado muito...
enquanto
arde a matança
é
violenta a esperança
nos
foi dado gritar
e
arranhar com os dentes
nos
foi dado um corpo
com
tantas inquietações
nos
foi dada a existência
com
tudo o que pensamos verde:
folha,
musgo, mar, gafanhoto
dói,
todo dia, às vezes...
e agradeço
o milagre
chorando
por nós
a
lâmina em riste
para próxima dança
cabeça
erguida
pés
firmes no chão
olhando
de frente
para
tudo que sangra
te
ofereço meu fígado
com
minhas próprias mãos
pega
querido, come...
é
de coração
mas
caso a guerra insista
posso
dormir tranquila
entre os assassinos
caso seja uma escolha
posso dormir também
entre os seres que matam
entre os assassinos
caso seja uma escolha
posso dormir também
entre os seres que matam
segunda-feira, 20 de março de 2017
desejo de lua minguante
quero
abrir a porta da rua
e encontrar
gente
pulsando
com o vento
essas
caras perdidas
entre
mentiras e meias palavras
ainda
e além, me deixam cansada
quero
multidões de corações
em
carne viva, pulsando
quero
só essa imagem fútil,
pobre
de tão gasta
sexta-feira, 10 de março de 2017
minha humanidade possível
sou
da falange dos fracos
loucos
do sentir
enquanto
grito e resvala
o
sangue na pele, ainda
olho
as minhas garras
meus
dentes que pingam
invoco
deuses estranhos
duvido
de todos eles
calo
sacio
as mãos no vento
evoco deusas sombrias
me abismo
me abismo
e lembro de nós
sangue
endurecido
cheira
a ferro e cicatriz
enquanto
ninguém morreu
...
ouço
as solas dos pés
corro
solta na água
o
som dos cascos ecoa
caio
sou
da falange dos fortes, também
e
mordo porque acredito no amor
domingo, 8 de janeiro de 2017
violentamente viva
se
bater
revido
e
aviso
sou
muito perigosa...
só
que no dia-a-dia
preencho
força de amor...
nada
especial
um
tipo de amor simples
que
gero, gesto e danço
entre
milagres e espasmos
incluindo
os ossos, as marcas
a pele,
as dores e as pedras junto
tem
sido um belo escudo
e
uma bela espada
a
cantar em tudo
“meu
tempo
é quando”
é quando”
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Para(á) no corpo
(para Thales, hoje)
a
infinitude das margens
parindo
um milagre todo novo
abrindo
uma beleza inaugural
da
violência divina em meus olhos
vastidões
de transbordamentos
no
giro incansável do corpo
pele,
músculos, sangue, ossos
memórias,
pulsos e acasos
ajoelho,
rio e choro
por
tudo que amanhece aqui
entre
ocasos e esperas
na
voz de uma imagem sem antes
invocando
lonjuras amazônicas
de
águas doces em mim
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
saturno em câncer
e
eis que num dia comum
nublado
como tantos
dei
de nascer sem querer
amando
tudo o que me move
como
um cavalo selvagem
e
aquele vento-crina
no
ritmo dos cascos
na água
na água
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
porta-retrato em riste
lembro
bem do longo corredor
lembro
bem da força do escuro
da
leveza pesada das sombras
do
ardor e dos sopros
trouxe
comigo os trapos da infância
e
todas aquelas desnecessidades
para
plantar no vento dos olhos
outros
espelhos nos agoras de sempre
as
ausências no espelho gritam
no
vazio refletido antes da imaginação
a
morte é feita
de
tantos nascimentos
que
tem precisão de sangrar
para
se crer enquanto espasmo
dos
desmaios e das faltas de ar
dei
para soltar polens de intentos
nessa
espera das palavras
antes
mesmo dos silêncios
arrancando
com as unhas a pele do abismo
e protegendo
todos os meus umbrais
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
uma oração antiga para saudar o dia
(diário
corporal, em louvação ao que a morte fecunda)
peço
licença
para
entrar nesse lugar
que
também é meu
peço
licença
para
ser e para dar
o
que pelo Grande Espírito
me
for dado oferecer
peço
força, coragem e sabedoria
para
ouvir os desígnios do Grande Mistério
e
humildade e fé
para
o caminho que se inicia
e
o que permanece
aqui
estou
aqui
me dou
aqui
me entrego
Aqui
recebo
o
que me traga a estrada
humildemente
peço é fé e luz
para
os meus passos
e
que em cada porta aberta
(e
até fechada)
eu
ofereça de bom grado
tudo
o que tenho e posso
pela
cura do mundo
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