quarta-feira, 28 de setembro de 2016

de uma prostituta espiritual, ao amor

ontem ouvi um aceno dizer
que sou um pássaro voando dentro dele
e não sei falar do vazio e vastidão que se fez meu corpo

em mim o amor persiste sendo
pertencendo agora a quase todas as criaturas
com o mesmo ardor

acho que todas...
talvez seja!

hoje me peguei amando a pedra
como a mim mesma

terça-feira, 27 de setembro de 2016

finitude cicatrizada

I

aqui, nesse canto indecifrável do mapa
há um eco de terras tristes tão fundas

tanta sombra
tanta luz
tanto abismo

que o milagre me dança no corpo
como se o chão também tivesse asas...
.................................................e raízes

II

a beleza que esconde
os mistérios que exala
a superfície que entrega

o movimento incessante
do que recebe dos rios
do que segreda com a lua

acredito no mar
e grito de assombro

por encontrar uma fé
tão grande assim

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

corpo sangrando em setembro

penúltimo dia de lua nova, 2016

dançarina de fados
assassina de traças

devota da terra
guerreira em faiança
arco flecha e lança

serpente do deserto
bicho alado
agonia e canto

e o corpo sendo
o meu circo
e a minha oração

há um acordo entre
o que doo à terra
e a lua crescendo

morte e vida
são atos de fecundação

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

sim, há um sorriso em meus lábios

na margem das oferendas
alguma coisa rosna e atravessa

de tanto não saber
rezei ao bicho
cantando à flor do milagre

entre os meus sonhos
já não há pesadelos

a beleza e o assombro rosnam
na mesma língua

é suficiente estar aqui

e já nem sei se ajoelho
ou grito

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

bordadeira de instantes

(entre o uivo, a palavra e o desconhecimento das coisas)

foto-dor tirada por mim na missa do vaqueiro, um fragmento
do efeito das rédeas entre rezas e perdões...

creio que há algo escrito em meus ossos
povoando poros devassados ao mundo

viver dói, isso é inegável
sendo junto esse grande milagre

por enquanto, que eu saiba honrar todos os corpos
os meus, os que me tocam, os que atravessam
os que me dançam... ereção, louvação, contradição

na minha fala, no meu riso, no meu grito
no silêncio, nos meus passos, na oração...
que eu saiba honrar todos os corpos na passagem

e que eu saiba matar e morrer
com a honra de um bicho

e o brilho nos olhos
de um ser selvagem

sábado, 6 de agosto de 2016

essas velhas coisas belas

de tristeza e de calma
a esculpir o tempo
faz muito não encontro
entre os ossos da alma
aquele homem faminto
que ainda ontem
assombrava os meus instintos
os pés sobre suores e abismos
como uma ode ao que perdi

e se mil sóis acendem no ventre
o que se mente a gerar fé
de escuridões se arde
e se acredita na lida
pele, carne, tudo isso que se come
chamando ventos e nadas
como quem canta
porque morrem as flores
mas antes, elas vivem

quinta-feira, 21 de julho de 2016

...

Se ao escravizar a beleza
entre vícios e fronteiras
estivéssemos acordados
pelo menos acordados...

A amplidão do escuro se despe das cores
para sonhar o vento em outros segredos